Não é de hoje. O esporte sempre espelhou em seus palcos o que se passa na sociedade. Estamos assistindo recentemente uma explosão de manifestações de atletas contra o racismo. Ontem, foi a vez de Neymar. E se nem Neymar – um dos atletas mais caros do mundo, jogando uma das principais ligas, em um dos principais esportes, com câmeras transmitindo em detalhes para todo o planeta – está imune a ataques racistas, dá pra ter uma ideia do que acontece quando não há vigilância?

Neymar reclamou nas redes. Ele não foi único a abrir o verbo no fim de semana. Na Formula 1, Lewis Hamilton subiu ao pódio do GP da Toscana vestindo uma camiseta com mensagem contundente:

PRENDAM OS POLICIAIS QUE MATARAM BREONNA TAYLOR, americana negra, uma das muitas tantas vítimas da sistemática violência policial nos EUA.

Hamilton é único piloto preto na F1. Há semanas vem se posicionando sobre racismo, mas ontem subiu o tom. E lamentou não ter entrado nesse movimento de protestos mais cedo.

Foto/Reprodução: Uol Esportes “8.set.2020 – Naomi Osaka usando máscara facial com o nome de George Floyd no US Open Imagem: Matthew Stockman / Getty Images”

No US Open, foi Naomi Osaka, atleta negra, meio japonesa, meio haitiana. Ela tem 22 anos e já é uma das grandes vozes do ativismo nessa causa. Já tinha se recusado a disputar uma partida do Torneio de Cincinatti, como protesto a outro caso emblemático de violência racista de policiais nos Estados Unidos, o de Jacob Blake. Na conquista do US Open, Naomi chegou para os jogos usando máscaras com os nomes de algumas dessas vítimas. O técnico dela, inclusive, tem relacionado o ativismo à boa performance em quadra.

Na NBA, no mês passado, um momento histórico. Foi justamente quando veio à tona o caso de Jacob Blake, morto pela polícia com sete tiros pelas costas. O time do Milwaukee Bucks se recusou a entrar em quadra na bolha da Disney. Encabeçou um movimento que acabou com três dias de paralisação na maior liga de basquete do globo. Jogos suspensos, e todos os desdobramentos com transmissão mundial das partidas, anúncios adiados…fizeram MUITO barulho. Palmas pra esses heróis!

Combater o racismo é urgente. E aderir a hashtags já não basta. E o esporte está mostrando, mais do que nunca, que está disposto a ser o balão de ensaio dessa mudança. E no melhor estilo “a união faz a força”. Os protestos recentes são significativos porque são a união de grandes vozes, de nomes de peso. Esforços conjuntos. E como tem sido importante ver a adesão de gente tão representativa como Hamilton, Naomi Osaka e o pessoal da NBA e WNBA.

É mais difícil para os opressores, para aqueles que resistem às inevitáveis mudanças sociais, punir um montão gente, ou mesmo punir um único representante sendo ele um peso-pesado da maneira como fizeram em 2016 com Colin Kaepernick. Lembra dele? Quarterback do San Francisco 49ers. Começou sozinho. Ajoelhando-se na hora da execução do hino nacional americano. Dizia que se recusava a mostrar orgulho pela pátria que estava assassinando gente preta. Recebeu críticas públicas do então candidato Trump. Coincidência ou não, a imagem de Kaepernick voltou a circular esse ano. Foi justamente com um policial branco ajoelhado sobre seu pescoço que George Floyd morreu asfixiado. Trump foi eleito e Kaepernick nunca mais conseguiu se recolocar na NFL. E a onda de protestos anti-racistas só cresce.

Historicamente, manifestações já foram vistas em outra escala. Como nas Olimpíadas de 1968, Cidade do México. Em meio a um boicote de atletas americanos negros à competição, dois foram, correram, venceram e simbolizaram a luta da população preta em todo o mundo. Tommie Smith e John Carlos, subiram ao pódio do atletismo com luvas pretas e ergueram os punhos fechados na hora do hino. Uma referência ao movimento Panteras Negras. Cena forte. Foto pra estampar capa de jornal. Mas atitude criticada pelo Comitê Olímpico internacional, que até hoje insiste que na bobagem de que esporte e questões políticas não se misturam.

Nas adiadas olimpíadas de Tóquio, inclusive, atletas estão proibidos de fazerem qualquer manifestação que possa ser interpretada como política nos pódios e cerimônias de premiação. É o que manda uma cartilha divulgada pelo COI com orientação aos participantes. E já existem iniciativas que tentam derrubar essa cláusula.

O esporte, assim como a música, as artes em geral, são algumas das maiores plataformas pra debate social. Um retrato do que vivem e experienciam os povos e a humanidade. Qualquer tentativa de aliená-las representa um grande risco de distorção. É impossível silenciá-los. E a história também está cheia de exemplos disso.