Inaugurei esse espaço aqui no site com um texto que falava da relação entre esporte e política. E essa semana um caso que também envolve essa relação ganhou os holofotes nas redes sociais: o da jogadora de vôlei de praia Carol Solberg, que aproveitou uma entrevista ao vivo após a transmissão dos jogos para soltar o grito de “FORA BOLSONARO”. Soou o ringue pra inevitável batalha campal da internet.

Muita discussão, muita energia, e muitos argumentos dos dois lados. Dois? Sim! Ainda me impressiona ver como todo debate online leva imediatamente pra uma polarização. Dois lados diametralmente opostos que não conseguem concordar, se respeitar ou simplesmente tolerar a existência do contrário. Ou se está de um lado, ou é inimigo mortal dele. Como se não houvessem muitas nuances de cinza entre o branco e preto… Mas isso é assunto pra outro dia.

Foto/Reprodução: Estadão Conteúdo. Após ganhar medalha, jogadora de vôlei de praia, Carol Solberg, grita ‘Fora Bolsonaro’.

Voltando ao caso da Carol Solberg. Vou ignorar aqui a quantidade absurda de comentários extremamente ofensivos que li contra uma atleta, referência em sua modalidade, pra falar apenas dos argumentos de quem criticou a atitude dela. O principal deles é de que ali não era o local nem a hora dela expor ou manifestar qualquer posição política. Vi muita gente dizendo que “ligou a televisão pra ver esporte, não política”.

Será que a premiação de uma competição esportiva depois de vários meses de paralisação era mesmo o local adequado para um posicionamento como esse? Será que qualquer competição é? Compreendo quem pense que não. Acho que talvez alguns quisessem só mesmo assistir a uma boa partida de vôlei de praia e o clima acabou virando pra outra coisa depois da fala da Carol. Entendo o argumento de quem pensa que situações assim tiram o foco da disputa esportiva em si, e a coisa acaba enveredando por outro caminho.

Por outro lado, não consigo não pensar “por que não ali?”. Talvez muitos não conheçam a rotina de um atleta de alto nível. É ralação e sacrifício pra muito além do que é glamurizado em reportagens de roteiros batidos. O pódio é a coroação de semanas, meses, anos de dedicação e suor que poucos viram ou acompanharam. O momento em que o atleta tem voltado para si as luzes, as câmeras, os microfones. E aí quem somos nós pra dizer o que ele deve dizer ou como deve agir nesse momento? Quais assuntos ele pode ou não abordar? O palco é dele, foi conquistado, e ele usa como bem quiser. Não gostou? Muda de canal. Não concorda com ele? Deixa de seguir o tal atleta nas redes.

A gente aplaude movimentos como o BLACK LIVES MATTER. Acha lindo quando as atletas da seleção feminina de futebol finalmente passam a receber diárias iguais às dos homens. Cobra de atletas de visibilidade um posicionamento mais claro diante de algumas questões. Acho uma hipocrisia sem fim querer agora CALAR alguém que apenas fez uso da sua voz num momento de visibilidade. São todas questões sociais! O debate político, assim como a luta de gênero, de raça, faz parte do nosso ambiente enquanto sociedade. Temas que nos pertencem, a todos nós. A mim, a você e à Carol também.

Vou repetir aqui o que já havia afirmado na outra publicação. Acho impossível dissociar política de qualquer outro aspecto das nossas vidas. Somos seres políticos (por natureza, segundo Aristóteles) e praticamos essa habilidade a todo momento, queiramos ou não. E o esporte é lugar sim de manifestação política. Assim como a música, a literatura, o cinema. Continuo defendendo que esses são grandes palcos onde ensaiamos debates de mudança e transformação social. É impossível silenciá-los. E se um determinado atleta conquistou uma plataforma, que use-a.

Um outro fato que chamou muito atenção no caso da Carol Solberg foi o volume de gente sugerindo que ela deveria abrir mão do patrocínio do Governo Federal se pretende ir a uma competição bancada pelo Banco do Brasil e falar mal do presidente da república. Como fake news corre rápido!!! A própria Carol teve que vir a público esclarecer que NÃO recebe benefício do Bolsa-Atleta nem patrocínio do BB. A logo que ela carregava no uniforme era a dos patrocinadores do evento. E ainda assim, qual seria o problema se ela recebesse? O Bolsa-Atleta é um programa de incentivo do Governo Federal, parte de uma política de ESTADO, para incentivar atletas brasileiros que tanto sofrem com falta de patrocínio. Não pertence ao presidente atual, como não pertencia ao anterior nem vai pertencer ao próximo. E não pode ser um critério de seleção do benefício concordar com quem senta na cadeira do Palácio do Planalto!

E antes que me acusem de conveniência, que venham dizer que só escrevo porque me alinho com a posição da atleta, adianto que não é nada disso. Não se trata de concordar ou discordar, ser de direita ou de esquerda, usar vermelho, verde, roxo ou rosa. Defendo a liberdade de expressão para que, mesmo você que pense diferente de mim, também tenha o direito de fazê-lo sempre.